PríncipedasFloresta

Em artigo exclusivo, nosso cientista florestal prevê que, no futuro, a biodiversidade cultural indígena deverá estabelecer uma aliança entre o conhecimento tradicional e a moderna biotecnologia

Por Mario Christian Meyer (*)
Fotos Priscila Olandim

Por mais de 15 anos procuramos encontrar a forma mais pragmática de salvaguardar e valorizar a rica biodiversidade amazônica e atlântica e o que resta do valioso conhecimento indígena brasileiro ameaçado de extinção. Como resultado destes esforços, concluímos que a forma mais viável de preservar essas riquezas únicas do planeta, oferecendo ao mesmo tempo condições dignas de existência a essas populações nativas da floresta, consiste em criar uma aliança inovadora e revolucionária entre os conhecimentos tradicionais e as biotecnologias. O primeiro representa o passo inicial, in situ, do conhecimento ancestral – empírico – dos recursos genéticos da floresta. O segundo, porque constitui o instrumento ideal que o mundo moderno desenvolveu para valorizar a biodiversidade. Hoje, o modelo está disponível e devemos tirar proveito disto.
Mas, como o índio poderá utilizar uma biotecnologia para criar bioprodutos? Muitos se perguntam: será o índio capaz de utilizar uma biotecnologia? Da resposta do homem branco (sua confiança) a esta pergunta crucial dependerá em grande parte o sucesso da preservação e da exploração racional da biodiversidade amazônica e atlântica. Temos constatado nos últimos anos, e principalmente nesta última missão, que muitas autoridades políticas e empresariais de alto porte, com quem tive inúmeras e veementes discussões e que certamente se reconhecerão na leitura deste artigo, têm um conhecimento parcial da realidade indígena e consideram que os índios já perderam o conhecimento que tinham da natureza, das plantas medicinais. Muitos dos que estão lendo estas linhas pensam da mesma forma. Torna-se assim vital pontuar!

É verdade que a maioria dos índios que se encontra nas proximidades das cidades já esta áculturada e que, face ao poder da cultura dominante, não estão mais em condições de “exercer” a sua identidade índia. Fazendo uma análise rápida e obrigatoriamente incompleta, é verdade que muitas pessoas acreditam que os índios só sobrevivem graças à FUNAI, e que muitos outros crêem que, se não fosse o “paternalismo” de algumas ONGs, eles já teriam desaparecidos. Porém, é fundamental lembrar que os índios, antes da chegada dos conquistadores, já viviam aqui há pelo menos onze mil anos (desde a era paleolítica superior). E sobreviveram, por milênios, sem a ajuda de quem quer que seja. Hoje, estima-se que 10% dos cerca de 358 mil índios do Brasil ainda vive sem contato com o homem branco e em perfeita harmonia com a natureza, mantendo a integridade de seus conhecimentos tradicionais. São apontados como índios isolados. É um caso único no mundo! Os índios isolados podem ainda merecer a denominação de “Príncipes da Floresta”. As comunidades indígenas que mantêm um alto grau de preservação psico-cultural têm por vocação tornarem-se os “Guardiões da Biodiversidade” no contexto da PNB - Política Nacional de Biodiversidade, e poderão aspirar a manter a denominação de “Doutores da Natureza” (não há espaço aqui para citarmos o inventário que fizemos de todas as contribuições do índio à ciência, como a crepitina, pilocarpina, quinina, tubocurarina, emitina, captopril...ou à indústria, como o látex da hévea...).
Para tanto, é necessário que atuemos rapidamente, pois o contato com o homem branco (e não com o pior representante da nossa espécie, tipo madeireiros ilegais, garimpeiros com mercúrio etc...) é inexorável! Neste sentido, tudo indica que a única forma de preservar o que resta da inestimável cultura indígena, face à poderosa civilização branca, consiste em fornecer ao índio os instrumentos da tecnologia moderna que servirão de escudo protetor ao mesmo tempo em que propiciarão a possibilidade de exercer uma função digna na sociedade contemporânea. Em troca, o seu saber enriquecerá certos aspectos da biotecnologia e ele se tornará mestre em alguns tipos de bioprodutos que correspondem aos anseios e demandas da era moderna. Esses bioprodutos terão, pelas nossas parcerias com centros de excelência tecnológicos e com organizações como a UNESCO, um selo de qualidade, de respeito à propriedade intelectual e de partilha eqüitativa dos benefícios. Para efetivar esse intercâmbio e a bioprodução pelo índio, criamos uma metodologia prática denominada Cogni Índios, que associa práticas da mitologia indígena relacionadas à biodiversidade com determinados processos da biotecnologia. Analisamos assim a perfeita correspondência que existe, por exemplo, entre o mito indígena “O Timbó e a Origem da Água” e a biotecnologia que desenvolvemos, PAT (Plantes à Traire = Planta a ordenhar) ou “Milking Plant Technology”. Os índios já produziram uma espécie de biotecnologia empírica aplicada às plantas medicinais, bem antes que esta palavra existisse.

Resgate Cultural

Os Índios, com a sua singularidade, têm respostas para os impasses em que o homem atual (hiper-moderno, hiper-especializado, hiper-produtivo) se encontra com relação à proteção da natureza: o futuro do nosso planeta. Uma das vertentes do projeto que deve ser ressaltada é a importância do resgate da identidade psico-cultural do índio no mundo, sua cultura e subjetividade muitas vezes anulada pelos homens brancos. Esse resgate poderá servir de modelo identificatório aos índios aculturados, para que possam reencontrar a nobreza do seu passado.Na perspectiva do desenvolvimento sustentável, esta magia da natureza tem um valor mercadológico poderoso numa das áreas de maior desenvolvimento na economia atual, o Etno-ecoturismo, que será o primeiro nicho privilegiado para o escoamento dos primeiros bio-produtos elaborados pelas comunidades locais com a nova biotecnologia em questão.
Atualmente, contando com os esforços do Instituto Nacional Politécnico de Lorraine – França, conseguimos, ao longo dos três últimos anos e levando-se em conta as características cognitivas dos índios, adaptar uma biotecnologia que nos permite formar um grupo de índios selecionados que pode assegurar a aplicação desse novo procedimento biotecnológico até a fase de produção de extratos vegetais semi-purificados, com alto valor agregado... Trata-se da PAT - Milking Plant Technology.
Assim, pela primeira vez na história, um procedimento prático irá permitir que empresários e comunidades florestais falem a mesma linguagem e tenham o mesmo objetivo: produzir resultados econômicos – e sociais – preservando a natureza. O benefício ficará em grande parte no Brasil. Esta nova biotecnologia constitui a alternativa ideal para valorizarmos o que há de mais precioso nas nossas florestas: os recursos genéticos e os conhecimentos tradicionais associados.

(*) O autor é presidente do PISAD (Programa Internacional de Salvaguarda da Amazônia, Mata Atlântica e Ameríndios para o Desenvolvimento Sustentável), com sede em Paris, em parceria institucional e financeira com a UNESCO – Programa “Amerindian Communication and Sustainable Economic Development Programme for a Culture of Peace”. É também professor convidado junto à Universités de Paris – Sorbonne, e membro titular da Société de Médecine de Paris.


2007 revistaecofenix.com.br - Todos os direitos reservados